segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

DIREI APENAS ESSAS...

DIREI APENAS ESSAS...
 Ana Maria de Portugal a Domingo,
11 de Setembro de 2011 às 3:16
 DIREI APENAS ESSAS..

 Direi apenas as palavras de amor que te endereço
 envolvidas na nudez inicial..
Direi as que te envio pelo telefone,
as que escrevo numa carta lacrada,
as que guardas à chave na gaveta.
As que a minha boca coloca nos teus olhos
e as que transformam o teu riso em arbustos floridos.
Direi somente as palavras vulgares e milenárias
viciadas pelos usos mais diversos
que tem mentido amores,
construído amores,
envenenando e sussentando amores...
Direi apenas essas --- mais nenhumas! -
- as que projectam luz directa nos teus passos
 para contar a história, a pobre história de uma casa,
uma cama, um orçamento,
-- a história tão banal mas espiada
por entidades misteriosas e solenes
 que velam para que nada seja escrito.
Direi apenas as palavras de paixão
que te remeto em flechas acertadas
 por sobre a multidão espavorida.
As que te arrancam de um corredor sombrio
 para outro que os meus dedos iluminam.
 As que fecham o alçapão das tuas mágoas
e rasgam a parede de silêncio.
As que telefono bem alto e sem paredes
 cuspindo na ironia dos que passam
As que te oferecem um galhardete colorido
 e te auxiliam a patinar
 sorrindo sobre a endurecida maldição antiga.
As que destroem o veneno da tristeza
E autenticam a tua marcha musculada.
Direi apenas essas...
Mais nenhumas!
As que arborizam o interior da solidão
e as que te escrevo com um dedo
nas espáduas...
 ana maria de portugal

ELEGIA SOBRE O ROMPIMENTO ESPERADO

ELEGIA DO ROMPIMENTO ESPERADO
Ana Maria de Portugal
a Sábado, 12 de Novembro de 2011 às 1:50

· ELEGIA DO ROMPIMENTO ESPERADO 

Logo que quebraste o que nunca foi ligado
desfez-se o equilíbrio dinâmico e fatal que,
ensaiado mil vezes com cuidado,
com trabalho, com dor,
sofrendo a dor brutal de saber
que duraria um só instante,
eu tinha conseguido.
Soubesse embora imenso o que lograsse, eu já tinha sabido:
Ficava sempre na beira do abismo o espectro da distância,
adiante velando à espera de mostrar aquela escura torva face.
Instante supremo, desfazer de mundos, ver os céus rasgados a terra a expirar...
sentir calar a voz do entardecer...
instante imenso, porque não chegaste para morrer?

Ana Maria de Portugal 2011